Do jardim para a mesa

Por 7 de setembro de 2016Na Cozinha, Sustentabilidade, Tendências

Desde que tive um insight e mudei a minha descrição de perfil para “urbano e rural” no Twitter, quando ainda morava em Lisboa (talvez), por volta de 2003/2004, nunca li um termo que me deixasse tão animado com a combinação das duas palavras: FoodScaping. Hortas urbanas, agricultura de jardim ou paisagismo comestível não são nenhuma novidade mas vêm ganhando muita força lá fora. No Brasil, a Prefeitura de Curitiba e tem um projeto de horta comunitária com mais de 25 anos e conta com mais de 1,3 mil lotes espalhados pela cidade, onde a galera planta, cuida, colhe e come os próprios alimentos da terra. Há a possibilidade de vender o excedente e ajudar na renda extra. Pelo mundo existem vários exemplos legais que fazem hortas comunitárias mas existe uma diferença entre hortas assim e o paisagismo em si torna-se comestível. Em alguns casos, como o do livro “The Foodscape Revolution”, a sugestão é combinar comestíveis com ornamentais. Segundo a autora, o foodscape design aumenta a bio-diversidade e práticas sustentáveis que são possíveis financeiramente e em termos de tempo. O livro (ainda sem previsão para ser lançado no Brasil) mostra diversos projetos, de básicos à complexos, e o leitor pode começar já a criar uma paisagem que combina beleza e utilidade. Nele, Brie Arthur também conta suas experiências desenhando jardins em escolas públicas, comunidades de aposentados e como isso mudou o cenário destes lugares para mais verdes. Imagina se pega por aqui!

codyhoganpost8_byjeffstultzMas o que me chamou atenção com a pesquisa do termo foi a possibilidade, e novidade, de pessoas que estão transformando os jardins particulares, localizados em centros urbanos, em hortas. Sou bem familiar com horta porque a minha família sempre teve uma horta em uma casa que temos, no campo. Fora da cidade, isso é muito comum e bem mais fácil. Aqui, aos poucos, a prática vem ganhando espaço. A grande questão é que, em cidades grandes, estamos mais habituados à apartamentos do que casas. Mas no Rio, muitos apartamentos possuem varandas, que são espaços completamente possíveis para virar pequenas hortas. Lá fora, os bairros ao redor das grandes cidades possuem mais casas e por isso, o movimento é maior. Aqui, outra opção para hortas urbanas seriam os jardins de áreas comuns de prédios e praças públicas.

Grades em parques podem ser boas para feijão ou tomates cerejas. Hortaliças podem ser plantadas em canteiros que já existem e podem até ser com as variáves esculturais, como alcachofras. Lavanda, alecrim e orégano também ficam ótimas com outras hortaliças. É muito importante considerar o que cada planta precisa de água antes de fazer uma combinação. Nada de colocar uma alface que tem muita sede ao lado de uma suculenta!

Produzindo ainda mais

Outra forma de tornar as fazendas urbanas mais produtivas (produtos em escala maior) chama-se Aerofarming (em tradução livre seria algo como tipo fazenda aérea). Isso já é uma realidade e uma empresa em Nova Iorque já produz e distribui 900 toneladas por ano de produtos frescos, incluindo vegetais, tubérculos e ervas. Mas, ao invés de campos abertos com sol e muita água, a empresa utiliza o processo de aeroponia, visto por muitos ambientalistas como o modelo de cultivo com maior potencial para o futuro da agricultura urbana (imagem abaixo). Com esse modelo, se utiliza 95% menos água do que a agricultura tradicional. Luzes de LED, altamente eco-friendly, também substituem a luz solar e um tecido feito de garrafas recicladas é utilizado para substituir o solo. É claro que existem algumas questões que cercam a desconexão da planta com o sol e os ciclos naturais do planeta. Mas, de certa forma, algumas experiências em relação à luz artificial já foram realizadas sem impacto nos vegetais. Além do mais, para este tipo de cultivo, não são necessários pesticidas, fungicidas nem herbicidas e isso faz com o alimento tenha uma redução de fertilizantes, que podem ser somente os naturais.

crédito: AeroFarms

A empresa suiça Urban Farmers está com representantes em São Paulo, buscando edifícios onde possa criar fazendas urbanas, como faz desde 2012 também na Holanda e na Alemanha. Nesta proposta, ervas, legumes e frutas serão cultivados pelo sistema de aquaponia. Daniel Pacheco, 38, engenheiro químico diz que “o motivo principal de trazer o projeto para a capital paulista é suprir a necessidade e a demanda por alimentos saudáveis em larga escala. A vantagem vem da logística, que vai permitir que o alimento seja consumido onde é produzido”. A ideial inicial são parcerias com empresas consumidoras como supermercados, varejos e restaurantes. Depois, a empresa visa atingir o consumidor final com feiras regulares também mostrando as vantagens do que consideram ser as fazendas do futuro, ligando projetos de cultivo com projetos de educação, também visando programas de alimentação escolar. Além de prédios, a busca é por Shoppings e terrenos baldios pela capital paulista.

E tem também a cura…guia-informativo-sobre-plantas-medicinais

Outra ideia é integrar vegetais e frutas com ervas que possam ser usadas com fins medicinais. A Faculdade de Medicina da USP tem uma pequena horta em seu pátio desde 2013. Criada com bombas plásticas azuis, a horta fornece uma diversidade de ervas que podem ser utilizadas para vários fins. As farmácias vivas, como são chamadas, devem ser usadas com muito cuidado e por isso o departamento criou um manual de uso, que está disponível para todos aprenderem um pouco sobre os muitos benefícios do Reino Vegetal em nossa saúde. E é claro que a horta é aberta ao público e completamente colaborativa.

Indo além

Para explorar no Twitter, uma hashtag legal é a , onde também há um perfil dedicado ao assunto. No Facebook, tem um grupo chamado Hortelões Urbanos com muitas dicas legais e uma comunidade bem engajada em facilitar quem quer começar uma horta urbana. No Instagram, vale conferir a hashtag #UrbanFarms, que na foto abaixo, mostra como a prática pode se espalhar e ser utilizada para beneficiar muitos enquanto traz mais saúde e sustentabilidade para a comunidade. Para inspirar, temos em nosso Pinterest, dois boards muito legais.

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#UrbanFarmers Carolynn Ladd & Brent Hall of @freewheelfarmatl grow organic veggies and fruits on several small urban farms … they turned a lawn into this thriving plot of land in 3 months! the landowner just wants weekly veggies in return! … Carolynn uses them in her personal chef business @adatewithfigs and Freewheel Farms delivers weekly veggie boxes, sells at farmers markets, and stocks local corner store markets to provide healthy options for those unable to afford transport and/or shopping at farther markets. Plus food stamps receive double value when purchasing Freewheel Farms veggies!! Thanks for the tour and inspiration! @adatewithfigs @patagonia #foodheros #eatlocal #foodnotlawns #foodismedicine #atlanta

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De todas as formas sugeridas, podem surgir combinações criativas que não existem. Mas a ideia é abordar a questão de que o sistema de produção de alimentos está precisando de inovações. Algumas destas propostas podem ou não mostrar evolução ou adaptabilidades de acordo com a cultura de cada local. Porém, podemos começar a experimentar e produzir volumes menores, para consumo próprio e deixar conhecimento para futuras gerações. Que tal começar agora?

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