Passado e presente em Schiaparelli

Por 5 de julho de 2016Moda
Schiaparelli

A moda está sempre com os olhos atentos ao futuro. Por isso é sempre tão instigante, quando ela realiza o movimento inverso, de olhar para o passado, com o intuito de reinterpretá-lo, recriá-lo ou, em certa medida, revivê-lo. Um movimento que precisa ser levado cada dia mais em conta, já que, parafraseando Cazuza, o futuro está sempre repetindo o passado.

No Outono-Inverno da Semana de Alta Costura de Paris 2017, Schiaparelli resgatou a coleção “Le Cirque”, lançada em 1938, só que, desta vez, com o nome (traduzido) “O Circo Solar ou Corpos Celestes”. Bertrand Guyon, atual criador da marca, retraduziu o espírito da coleção, recuperando as cores da primeira, assim como os casacos bordados, as estampas de borboletas e os olhos aplicados como broches de maneira inusitada nas peças. O rosa shocking também apareceu como personagem disposto a dar vida aos conjuntos austeros. Os detalhes recheados de brilhos saltam aos olhos e os recortes e colagens de tecidos sobrepostos tornam a cena estimulante, porém, elegante; elemento que sempre foi essencial para a maison.Schiaparelli, haute couture 2017A ideia de um circo que se constrói pelos detalhes e não pela obviedade dos excessos, assim como a elegância que se revela pela estranheza dos ombros mais altos que o esperado, são elementos que ressoam do trabalho de Elsa Schiaparelli, completamente calcado na contradição. Apesar da silhueta ser, em sua maioria, enxuta, são os detalhes que, combinados, tornam-se espetaculares. É a ousadia e a sofisticação da mulher Schiaparelli que são, de fato, o espetáculo. Confira o desfile na íntegra, abaixo:

Elsa Schiaparelli é daquelas figuras históricas que jamais devem ser esquecidas. Como estilista, ela influenciou e se deixou influenciar por diversos artistas, sobretudo pelos surrealistas. Ela, que faleceu em 1973, entendia a moda como um desdobramento das artes plásticas e se sentia disposta a estabelecer essas relações. Seus grandes amigos, Salvador Dali, Christian Bérard, Marcel Duchamp, Jean Cocteau chegaram a colaborar com suas criações. De Dali, veio o vestido-lagosta. De Jean Cocteau, o casaco cujo bordado revela os cabelos de uma mulher caindo pelos braços. Entre outras criações que tanto atraíram quanto chocaram as pessoas da época.

Quando se questiona a importância da existência da Alta Costura para a Moda, me parece que está em recuperar, trazer novamente à tona, os discursos e os elementos estéticos que foram criados em momentos muito específicos da história, mas que fazem todo o sentido ainda no presente e, cá para nós, mostram o quanto ainda dependemos da visão de artistas como Schiaparelli para reelaborar novos discursos e reinterpretar o que somos e o que ainda insistimos em ser.

Crédito das fotos: Dazed Digital. Clique aqui para ver mais.

Bruna Venâncio
Trabalho com texto e até nas horas vagas só penso em escrever. Sou formada em Letras e em Moda. No resto do tempo, eu canto, danço, pinto e bordo.
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