A natureza da solitude

Por 3 de agosto de 2016asEdições

A natureza é perfeita, inclusive a natureza humana — que tem sua base na mente humana que, por sua vez, tem um potencial incomensurável. O estado natural da mente é a calma, a paz e o vazio. E foi do vazio que surgiu a descoberta do tema que abordaremos na próxima edição da revista aLagarta: solitude. Isso aconteceu há mais de um ano atrás, em um momento de ócio criativo, contemplativo, do jeito que deve ser e durante o hiato da revista — nossa reclusão voluntária pensada estratégicamente para pesquisar, olhar pra dentro (e pra fora), inspirar, expirar e sentir. Principalmente, foi em um momento de solitude que, assim como todos os pensamentos, esse novo pensamento surgiu. Ficamos muito felizes, porque como este tema trata de algo essencial, muito em breve ganharia mais evidência.

Por que essencial?

Nossa percepção sobre o momento humano é de uma ultra-hyper-mega-conexão superficial, externa e virtual: todos sempre online, ligados e conectados em pelo menos duas redes sociais diferentes, com diversos grupos, mais WhatsApp (e mais grupos), mais email, mais e mais e mais! Raramente o silêncio é apreciado sem que toque um alarme ou notificação que te tire do “sonhar acordado”. Nisso, uma conexão mais profunda, interna e meditativa é cada vez mais rara — e agora considerada um luxo. Conexão essa que é de extrema importância para a criatividade, ou seja, é crucial para realizarmos o que aLagarta — e qualquer criativo — sempre propôs.

Parece que um certo “culto ao coletivo” está exacerbado em detrimento de um simples “olhar pra dentro” e lidar com obstáculos internos que nos proporcionam uma felicidade real e não ilusória, (como o número de likes em uma foto no Instagram). As conexões virtuais estão cada vez mais exageradas e muitas pessoas seguem regrando suas vidas em função de aplicativos e redes socias. Com isso, vejo que a solitude seja — entre outros — um caminho natural para termos mais equilíbrio, harmonia e qualidade criativa em nossos projetos. Para muitos, trata-se de um estado essencial para criar, enquanto para outros pode significar algo aterrorizante. É claro que o coletivo é importante e o energamos como uma das grandes forças para um novo mundo, mais colaborativo. Esta é uma parte significativa da aLagarata, desde que surgiu em 2010. Mas é momento de colocar o indivíduo antes do coletivo, alinhar propósitos internos e seguir (repetir constantemente).aL-blog-Solitude-post-02Muitos estão finalmente reconhecendo o fim de uma era (Peixes) e o início de outra (Aquário) e desde o final da 2ª Guerra Mundial, seguimos em uma transição que não se sabe ao certo quanto tempo pode e deve durar. Alguns autores da Teosofia (como Alice Bailey e Helena Blavatsky) dizem que essa transição leva cerca de 200 anos, ou até mais, dependendo do estado de consciência do coletivo. É um fato que as pessoas estão buscando mais consciência, de forma geral. Mas não sabemos o tempo que isso pode levar. Para nós, o que é importante para a nova era, além do coletivo, é iniciar este processo com um conhecimento mais profundo de nós mesmos. Isso só é possível, por experiência, se o indivíduo se observar em estado de solitude. E existem várias maneiras de praticar a solitude, com tanta informação e tantos lugares ainda inexplorados no planeta. Consideramos que para processos criativos seja fundamental buscar inspirações antes de se colocar em estado de mente e coração abertos. A transição é justamente sair do que é velho e criar o novo. Na sequência, falo um pouco do que me inspirou para chegar a este estado.

Inspiração

Em meus momentos de solitude, busco experiências que possam dar resultados criativos em diferentes níveis. Seja como criativo ou pai, sou antes um ser humano como outro qualquer e preciso de informação que hoje é disponível por uma das ferramentas mais colaborativas que existe: a internet. Porque também é na internet que encontro e descubro os livros que vou ler quando me desligo completamente dela. Foi por aqui que descobri alguns pensadores sobre o tema solitude, quando fui me aprofundar um pouco e realmente lançar a ideia do tema para a Carol. Queria ter uma base sólida para convencer e a pesquisa é uma etapa fundamental. Na pesquisa, descobri que muitas pessoas já conhecidas, como Albert Einstein, Umberto Eco, Alan Watts, Nietzsche, Henry David Thoreau, Aldous Huxley, Pablo Picasso, entre outros, desenvolveram muito sobre o tema. Mas foram os nomes novos que me despertaram maior interesse, pela surpresa, pela profundidade e pelo desenvolvimento do tema.

Descobri Blaise Pascal, cientista e filósofo francês que, em 1654, escreveu:

“Todos os problemas da humanidade nascem da incapacidade do homem para sentar-se quieto em uma sala, sozinho.”

Foi lendo determinados pensadores que descobri que uma afinidade por solitude é o mesmo que ter afinidade por uma pessoa. Algumas pessoas enxergam como um risco, ou um medo, que os sonhos e os pensamentos mais intrínsecos venham à tona durante momentos de solitude. Assim, a fobia deste estado pode durar uma vida inteira.

Foi através dos textos de Adam Phillips que percebi que o adolescente é, em essência, um isolado. E deste posicionamento ele se lança ao mundo em suas relações, repetindo fases de sua infância (também isolada), até que consegue estabelecer uma capacidade de se relacionar com algo externo e fora de seu mundo mágico, em solitude, onde tudo pode ser controlado. Ou seja, existe magia em se isolar e estar sozinho, ainda mais com objetivos criativos e de produzir algo. Pensando bem, acredito que não tem muita alternativa se não começar a criar, seja da forma que for, quando se está sozinho. Ele diz que “o risco de estabelecer a solitude de alguém é o risco do potencial de liberdade deste mesmo alguém.” Quando questionado sobre os riscos gerados pela auto-destruição e medo de encarar a solitude, Phillips segue e conclui considerando o que define o melhor tipo de solitude. Ele descreve um estado que posteriormente foi chamado de “flow” que também foi descrito vividamente por Tchaikovsky, em 1878: “A solitude fértil é um esquecimento benigno do corpo que toma conta de si mesmo… Uma solitude produtiva, onde algo que nunca poderia ser previsto aparece, está ligada com a qualidade de sua atenção.”

Outra descoberta incrível foi o romancista, poeta e ativista ambiental Wendell Berry, que afirma que

“A solitude verdaderia é encontrada em lugares selvagens, onde não existe a obrigação humana. A nossa voz interior se torna audível… Em consequência, respondemos mais claramente à própria vida.”

Ele também defendia e buscava a originalidade, característica de quem, em sua visão, trabalhava sozinho antes de buscar o coletivo. Do retorno da solitude para a sociedade, ele alertava que deveria ser feito com cuidado pois da natureza para a cidade, iríamos da ordem para a desordem.aLagarta, Solitude

Na velocidade da natureza

Outra característica bem marcante que encontramos ao pesquisar e vivenciar o tema solitude foi a lentidão. Na verdade, foi uma re-identificação que precisamos fazer, já que aLagarta sempre defendeu os movimentos denominados de “slow” como um todo. Desde a mudança de hábitos até a própria produção da revista e seu lançamento, não está sendo forçada à prazos e pressões do mercado. Somente ao nosso desejo e necessidade de se expressar e ser. Em solitude, a nossa velocidade diminui naturalmente, porque acompanha a natureza. Deixamos de ser bombardeados com informações em ritmos caóticos e, assim, conseguimos nos conectar com a nossa própria natureza — o que Berry chama de original. Uma pesquisa da Universidade de Utah e do Kansas descobriu que o contato humano com a natureza é produtivo e aumenta a criatividade em até 50%. Esse potencial é alcançado principalmente quando nos desconectamos de redes sociais e eletro eletrônicos.aLagarta, Solitude

Solidão vs Solitude

Um dos maiores desafios que tivemos foi separar e destinguir solidão de solitude. E foi em um poema de Wendell Berry que encontrei a melhor conclusão sobre essa comparação. Para ele, a solidão é o fracasso da solitude.

 

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