Making of: aLagarta 21 | Surpresas, desapego e solitude

Por 8 de agosto de 2016asEdições
aLagarta 21, SOLITUDE - making of

Com toda mudança, vem um tempo de reflexão. E nós não poderíamos defender o movimento slow mas ao mesmo tempo basear nossas escolhas na contradição e correr contra o nosso tempo.

Percorremos um longo caminho desde a conceituação do tema SOLITUDE em meados de 2015, até a tomada de decisão de migrar para o impresso, a jornada do crowdfunding e de toda a produção da edição #21. Porém, hoje trabalhamos em um “plano b” – e isso não é um problema, mas sim uma nova oportunidade.

aLagarta me ensina diariamente que desvios no caminho podem ser bons e que momentos grandiosos nascem justamente das coisas simples – como fazer o que se ama. Então, o que importa é seguir em frente, da forma que for possível.

Os editoriais produzidos pra essa edição foram verdadeiras lições de flexibilidade e desapego. Então, enquanto SOLITUDE não lança, compartilho essas histórias com vocês:aLagarta 21, SOLITUDE - making ofDomingo, Dia das Mães. Eram 4h da manhã e já estávamos na rua, buscando as meninas para nosso bate-volta até Cabo Frio. Equipe enxuta: nossa modelo #1, Tamires Ribeiro, e nossa produtora mil em uma, Fê Ventura. “Paraty em 2014, com essa mesma equipe, foi uma viagem mais tranquila” – pensei –, afinal, a gente não tinha hora pra voltar. Dessa vez, tinha que dar certo até 11h da manhã!

Mas com aLagarta as coisas dão sempre tão certo que, quando dão “errado”, é porque o errado na verdade é o caminho. E a gente precisa estar sempre aberto para tais surpresas.

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aL21-Solitude-makingof--08Foi assim com Cabo Frio. O conceito de fotografar nas Dunas veio como um plano alternativo para uma outra locação, fora do estado do Rio. As datas da nossa modelo não estavam flexíveis para uma viagem mais longa, mas gente queria a Tamires na capa. Solução? Ficamos com a Tatá e mudamos a locação. E deu muito certo.

O dia começou nublado, do jeito que a gente queria e havia idealizado para esse editorial. Vimos a solitude através das lentes. Depois, na segunda locação, o sol abriu e foi a luz dourada mais bonita que eu já vi. E assim, surgiu Grã, o último editorial fotografado pra edição #21.aLagarta 21, SOLITUDE - making ofLondres foi um sonho muito esperado e a cidade parecia sentir nossa confiança. Tanto que a testou de todas as formas que podia: fiquei doente (com febre e dor de garganta) e, ao chegarmos na locação combinada há meses, a chuva caía sem parar.

Éramos eu, Géssica Hage (com quem dividi as lentes) e mais cinco mulheres incríveis e muito profissionais: a maquiadora Kristina Pavlov, a modelo Shelley Kyne, a stylist Kim Latieule e as designers Monika Dolna e Olga Novikova, que cederem peças para o shooting.

Imagine mudar todo o conceito de um editorial pensado minuciosamente, na hora das fotos. Imagine uma Londres molhada e fria e 6 mulheres com roupas e equipamentos, sem lugar pra se abrigar.

E então, surgiu um lugar.aLagarta 21, SOLITUDE - making ofO café/pub The Bridge House, anexado ao Canal Café Theater nos acolheu e se tornou nossa nova locação. E como se não bastasse esse alívio, algo ainda mais bonito aconteceu: a energia d’aLagarta se manifestou naquela equipe de desconhecidas. Sou muito grata por ter experienciado o espírito coletivo de uma forma completamente nova. Afinal, mesmo com todos os motivos, ninguém pensou em desistir.

Quando vi, todas estavam se ajudando, conversando com a gerente do café (outra mulher maravilhosa que nos cedeu o espaço para as fotos), dando ideias e pegando chuva também (nos cliques externos).

E eu, que pensava que a co-criação com Géssica em Londres seria o auge dessa vivência, voltei de lá transformada, com uma bagagem profissional (e emocional) ainda mais rica!aLagarta 21, SOLITUDE - making of

aLagarta 21, SOLITUDE - making ofDe Londres pro Death Valley (Vale da Morte), na Califórnia. Um pouco antes do nosso shooting na Inglaterra, a colaboradora Tatiana Ruediger aproveitava sua temporada como estudante de cinema nos Estados Unidos para produzir um editorial lindo pra gente. O conceito foi pensado e trabalhado de uma forma muito profunda, pessoal, e instigante. Assim que Tati apresentou pra gente, foi aquela animação, porque sabíamos que ia ficar incrível. Abaixo, ela conta como foi a experiência de clicar no deserto:

“O Death Valley fica a cerca de 4 horas de Los Angeles.  Fui com dois amigos de carro e fiz as fotos no dia seguinte da nossa chegada, bem cedinho, pra evitar que fosse vista por turistas. Como fiz o ensaio seminua, fiquei com medo do puritanismo americano. Então, achei que a melhor saída pra evitar qualquer inconveniente seria levantar cedo para evitar reclamações. Na verdade, minha ideia inicial era fazer o ensaio em lugares diferentes, mas percebi que, apesar de ser o Vale da Morte, o lugar estava cheio de vida, e ficou difícil escapar dos turistas. Como o deserto é um vale, ele tem o formato de uma bacia, então, mesmo que fôssemos para bem longe ainda era possível ver a estrada, pois grande parte do terreno era uma planície. Por conta disso acabei focando o ensaio em um lugar só e por sorte não tive nenhum imprevisto!

Outro desafio foi o sol a pino: o Death Valley é considerado o lugar mais quente do mundo! Por sorte decidi fazer o ensaio bem cedinho, então não peguei a pior parte do sol. Mas, mesmo assim, acabei o dia com ensolação. Apesar disso tudo, o resultado me deixou bem feliz e pra mim é isso que importa! O lugar era inspirador, principalmente porque fui no Superbloom, que ocorre na primavera, época em que flores selvagens parecem magicamente surgir do chão rachado de tão seco e árido.”aL-Solitude-makingof-16

“O contraste do chão seco e aparentemente sem vida com a delicadeza das flores se refletiu no ensaio, e acabou me levando a elaborar a ideia de que, para renascer, às vezes precisamos morrer um pouquinho também.” – Tatiana Ruediger.

aLagarta 21, SOLITUDE - making ofDe volta ao Brasil, nossa colaboradora de Recife, Bruna Valença unia sua equipe para um de seus editoriais mais poéticos, que ganhou o nome Poema de Pássaro, inspirado na letra da canção Sino de Ouro, do também Valença, Alceu. Bruna é uma exploradora nada, caçadora de histórias. Seu depoimento prova o quanto a fotografia pode nos levar a lugares especiais surpreendentes:

“Trabalhamos com três locações diferentes, mas elas dialogavam entre si pra caramba. A primeira foi em uma plantação giga de eucalipto na beira de uma estrada, aqui na divisa de Recife com o interior, Gravatá. Foi incrível clicar lá porque o lugar por si só já emanava uma energia diferente! Amei esse lugar. A nossa segunda parada foi improvisada. No caminho da fazenda do meu namorado (nossa 3ª e última locação), encontramos uma rua vazia cheia de verde e lugares misteriosos. Resolvemos parar o carro ali mesmo para clicar um look extra e acabamos ficando 1 hora só naquele local! Amo ir explorando lugares legais e descobrindo novos pontos de vista em um ensaio. Essa rua foi em um interior depois de Gravatá chamado Serra Negra. É bem friozinho mesmo sendo super perto de Recife!aL-Solitude-makingof-17A 3ª e última locação é um lugar bem especial para mim. É a fazenda dos meus sogros, e um lugar onde quase ninguém vai! haha Conseguir a permissão deles para fotografar, mesmo assim, foi bem fácil, porque eles me apoiam demais no meu trabalho. <3 Nós não exploramos nem 10% do que a locação tem a oferecer porque é realmente muito grande e cheio de lugareszinhos lindos! Rende uns mil ensaios facinho. Mas dentro do que a gente tava querendo, na nossa proposta, foi perfeito e eu amei passar a tarde lá com a minha equipe!” – conta, comprovando os sorrisos nessa imagem dos bastidores que enviou pra gente. 🙂aL21-Solitude-makingof-15E por fim, chegamos ao começo, com o primeiro editorial fotografado para a edição SOLITUDE, em Janeiro, em nosso santuário: Visconde de Mauá.

Taís foi o primeiro editorial conceituado e fotografado apenas pelo Leo. E enquanto eu exercia a função de videomaker, não só exercitava o desapego de não ser responsável pelas fotos, mas também o prazer e o foco em filmar. Isso porque, pessoalmente, considero-me antes de tudo, fotógrafa. Mas a experiência com esse vídeo em particular foi libertadora.aLagarta 21, SOLITUDE - making of

aLagarta 21, SOLITUDE - making ofUma equipe de 3 pessoas pode realizar tanto quanto uma equipe de 10, se estiver presente e dedicada. E Mauá, como sempre, nos abraçou com sua magia e silêncio, proporcionando o ambiente perfeito. Mauá é pura solitude.

O resultado ficou além das expectativas provando que até mesmo nossa maior meta pode ser transformada em algo que nem nós mesmos podíamos imaginar.aLagarta 21, SOLITUDE - making of

 É muito gratificante publicar mais uma edição “viajante”, uma edição que conseguiu reunir ideias de lugares distintos e distantes. Ver o coletivo transpor fronteiras é uma vitória dentro de uma publicação independente como aLagarta. E não poderíamos estar mais felizes em publicar o trabalho lindo de artista que  tanto admiramos. SOLITUDE em breve lançará com todas essas belezas e muito mais.

Carol Lancelloti
Fundadora e diretora criativa da revista aLagarta e do coletivo absolem. Fotógrafa apaixonada, bailarina dedicada, capricorniana e cat lover.
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