Divino, surreal, maravilhoso: um papo com Larissa Arantes

Por 13 de outubro de 2016Arte

Pra aLagarta, sempre foi uma alegria descobrir e compartilhar o trabalho de novos artistas. E ultimamente, tenho gostado bastante de contar essas histórias além das edições, explorando o espaço do blog também. Ler e entender o processo criativo dos artistas que nos cativam é sempre uma viagem particular muito inspiradora. Quem gosta de ouvir histórias se deixa viajar e responde muitas perguntas internas sobre como funciona a cabeça criativa daquele indivíduo. Eu, pessoalmente, adoro! 🙂

Hoje, abrimos espaço para a arte de Larissa Arantes. Lari entrou em contato com a gente pra mostrar seu trabalho, tão multifacetado e rico quanto suas experiências. Antes mesmo de nossa conversa, percebi que em suas criações há uma forte influência da década de 70, uma brasilidade natural, descompromissada, e muita feminilidade, mas sem clichês. Toda essa mistura me deixou curiosa pra bater um papo com a artista, que divido a seguir com vocês:Ilustração de Larissa ArantesOi, Lari! Conte pra gente um pouco sobre você. 🙂
Sou designer formada pela ESDI/UERJ com quase 10 anos de experiência em agências e escritórios de design. Sempre tentei incluir minhas ilustrações nos trabalhos de design gráfico, mas mesmo assim, minha expressão pessoal acabou ficando em segundo plano durante estes anos. Em 2016, com a saída de um emprego, decidi me dedicar aos meus projetos pessoais como ilustradora, resgatando antigas paixões. Tenho um traço mais feminino e uma inclinação para os detalhes. Gosto de buscar referências que instiguem o olhar, que explorem o universo feminino para além do senso comum. Me interessa a mistura do delicado com elementos surrealistas, distorções de escala e de significados.

Quando você se descobriu artista?
Desenhar sempre foi minha brincadeira favorita desde muito nova. Criava histórias em quadrinhos, bonecas de papel, personagens, desenhava roupas… Quando criança, queria ser estilista. Na adolescência, passei pela fase mangá, com influência dos traços japoneses nos meus desenhos. Depois, com o tempo, o interesse foi canalizado para outras áreas. Cheguei a cursar a faculdade de pintura da Escola de Belas Artes da UFRJ por um breve período, mas larguei para fazer o curso de Desenho Industrial da UERJ, onde me formei em 2007. O curso de design abriu completamente a minha percepção de mundo e depossibilidades de atuação como ilustradora.Bordado de Larissa ArantesVocê trabalha com diferentes técnicas, como gravura, bordado, e até produz carimbos. Conta um pouco sobre cada uma delas. Existe alguma que você mais curte?
Gosto muito do caráter artesanal que estas técnicas têm em comum. A gravura impressa em serigrafia exige um planejamento da ilustração que funcione em poucas cores, devido ao processo de impressão. É interessante perceber que essa característica não necessariamente limita o resultado, pelo contrário; é uma técnica que possibilita uma ilustração mais gráfica e até mais pregnante. O bordado, por sua vez, foi um resgate que fiz de aprendizados que tive com minha avó. Ela me ensinou os pontos básicos no início da minha adolescência, e esse conhecimento ficou adormecido em mim durante alguns anos.

Recentemente comecei a me sentir desconfortável com o excesso dos aparelhos eletrônicos na minha vida, o que era impossível de evitar trabalhando como designer num escritório. Daí nasceu a vontade de praticar mais atividades manuais, o que me dava um respiro de alívio. Comecei então a desenvolver os quadrinhos bordados.

Já o carimbo foi uma solução simples, barata e simpática para identificar as embalagens dos produtos da minha marca. Não tenho uma técnica preferida para me expressar. Gosto de explorar as possibilidades de diversos materiais e superfícies.Ilustração de Larissa ArantesConta um pouco sobre o seu processo criativo. Tem algum ritual específico?
Música é fundamental pro meu trabalho. Estou quase sempre ouvindo alguma coisa enquanto desenho, pois me inspira e me dá o ritmo do processo. Prefiro começar uma ilustração à mão e, dependendo do caso, digitalizá-la só depois, durante a colorização e finalização do desenho. No bordado acontece o oposto: como a construção do ponto cruz é bem parecida com a dos pixels, faço o planejamento do desenho numa grid no computador, e uso esta malha como base para começar a bordar. Só trabalho com o sol! Sou uma pessoa muito diurna, que gosta de acordar cedo para aproveitar ao máximo o dia. A criação à noite é um processo muito difícil e penoso pra mim.

Ilustração de Larissa ArantesVocê é daquelas que anda com caderninho pra anotar ideias e não correr o risco de esquecer?
Sempre tenho uns papéis soltos ao meu redor cheios dessas anotações. As ideias surgem nos momentos mais diversos, mas quando elas são boas mesmo, não preciso nem anotar. Elas ficam martelando na minha cabeça e não sossego até executá-las.

Quais artistas te inspiram?
Muitos, não necessariamente artistas visuais. Como falei, a música está sempre presente nos meus processos, e alguns estilos acabam me influenciando mais. Tenho paixão pela produção brasileira da década de 70: o rock da Rita Lee, a poesia de Macalé, o samba do Nelson Cavaquinho, a voz da Gal. Adoro os quadrinhos do Guido Crepax e do Jean Giraud. O Crepax me impressiona pela complexidade do traço em preto e branco, pela linguagem cinematográfica dos quadrinhos e pela quantidade absurda de referências culturais que ele incluía nas histórias da Valentina, minha personagem favorita de todos os tempos. Já o Jean Giraud, ou Moebius, me encanta pelos cenáriosincríveis com criaturas vindas dos sonhos mais loucos… e eu amo esse aspecto visionário do trabalho dele. Na área de ilustração, os artistas que tenho acompanhado mais são o Daehyun Kim e a Wishcandy.Ilustração de Larissa ArantesE quais são os planos futuros?
Dia 15 de outubro participarei do meu primeiro evento, a Feira Livre. Pretendo participar de outras feiras também, para tentar me aproximar do público consumidor de artes visuais. Em paralelo, mantenho uma loja virtual com alguns produtos ilustrados por mim que estão à venda.

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Carol Lancelloti
Fundadora e diretora criativa da revista aLagarta e do coletivo absolem. Fotógrafa apaixonada, bailarina dedicada, capricorniana e cat lover.
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